Ao Mestre com Carinho

Seria esta uma despedida sem lágrimas?

A tarde de hoje, uma disfarçada segunda feira, parecia ser apenas um dia a mais, uma data a mais em nosso calendário, não fosse a sacudida que nos deu Wilson J. Comel. Logo ele, para quem “o tempo” “é preciso aproveitá-lo, extraindo-lhe a última gota porque “o homem não tem porto; o tempo não tem margem; ele corre e nós passamos”, citando Lamartine.

Obrigá-lo a parar para daí a gente pensar no que fazer? Ou simplesmente deixar-se levar pela correnteza do presente, sem se preocupar com a areia que cai da ampulheta? Talvez, então “viver cada dia como se fosse cada dia … Nem o último, nem o primeiro, simplesmente o único”, diz, ao mencionar Pablo Neruda.

Disse ele em seu “lagariço” (frutos de uma mente inquieta) que “cada um é cada um, com a sua vida ordinária, com suas encruzilhadas, seus enredos, suas vicissitudes, realizações e frustrações, amores e rancores, através dos quais desenrolamos o novelo da vida e tricotamos a memória”.

Sempre achei que as despedidas fossem mais fáceis.

E talvez até sejam, quando o nosso adeus não vai direcionado para pessoas especiais como o “Wirso”. No meu caso, por tudo o que vivemos juntos e por tudo o que ele nos proporcionou. Ir embora é uma profunda dor, como se nos arrancassem parte do coração.

Numa despedida da universidade, disse que “vocês foram mais que colegas de trabalho. Eu olho para todos como uma verdadeira família que levarei comigo eternamente. Continuação de muito sucesso para todos vocês!”

A provocação feita no título acima não tem sentido.

Isto porque, lá vem o choro seguido de lágrima e com as lágrimas vem o lamento e com o lamento vem a dor da perda e com a perda vem o sofrimento e com o sofrimento vem a angústia acompanhada do choro.

Esta tarde parecia um dia como os outros, sem nada de especial projetado no universo das nossas vidas. Exceto um senão que seria descortinado, onde o protagonista seria o (sempre nosso) Confrade e professor Comel.

Aliás, aqui também surpreendente como costumava ser ele em suas tiradas.

Pudéssemos intervir na decisão divina, e assim no campo da Lei, certamente usaríamos de todos os recursos cautelares, antecipatórios e de mérito, para demonstrar a precipitação com que o Criador estava agindo, ao tirar-nos o sagrado direito de tê-lo entre nós, não apenas como um Confrade e um professor imprescindível, mas, como pessoa, como amigo, sempre ao dispor do encaminhamento de qualquer situação.

Mas, a dura realidade é que o Mestre, minha referência, o Acadêmico Wilson Jerônimo Comel nos deixou, aderindo ao chamamento de Deus, renunciando nossas outorgas, e, hoje, por certo, com sua pelerine compondo outras Academias, com o seu jeito “mente inquieta”, simples, nos acenando e preparando algum terreno fértil para uma recepção calorosa para aqueles que sempre lhe foram caros, de modo especial, seus alunos, e nos, seus confrades.

Sempre era mais fácil perguntar ao Comel, do que abrir um dos sessenta volumes do Pontes de Miranda, seu ídolo. Citando Pontes de Miranda dizia o professor, de mim, seu aluno, exigiu decorar que “onde se falta à verdade, há injustiça”. Non pro commodo privatorum sed comum utilitate.”

Por isso, esta não é “crônica de um adeus”, até porque ele continua presente entre nós com os seus ensinamentos, saudade e exemplo de vida.

Mas, o choro vem, sim senhor!

Esta é apenas uma tentativa de agradecimento, de dizer “um até breve” ao professor, ao Acadêmico Comel, no plano físico, e, um “fique conosco” nas belas coisas que nos deixou, legados da sua imortalidade.

Quando a gente conhece um Acadêmico, e mais, um acadêmico/professor, no primeiro encontro, conhece-lhe o rosto. Depois, conhece-lhe o coração, e, desde logo, nele, uma biografia de vida bem escrita, quanto bem vivida.

Viu-se, o Acadêmico Wilson J Comel traçando o seu ideal, sem se importar se os seus objetivos se pareciam com as estrelas, aparentemente fora do alcance, mas que, como quem navega se guiando pelos astros, navegou ele, guiando-se pelo ideal.

E, certamente chegou com maestria.

Em sala de aula, queria e foi de nós o grande Mestre.

Neste ponto, nosso orgulho não tem medida, quando refletimos sobre o Professor e Confrade Comel, que teve a glória de quedar em seu melhor momento, em seu campo preferido, ensinando, fazendo do seu escritório uma sala de aula, sem horário marcado. Ainda na sua Academia, poetando, escrevendo, fazendo das letras o seu traçado de vida.

Aqui, seu leito da imortalidade, a sua Academia de Letras dos Campos Gerais.

É verdadeiro lembrar dele, na exata dimensão em que se recorda o sonho do Imperador D. Pedro II, quem, ardentemente desejava “se não fosse Imperador”, dizia ele, “ser professor”, justamenteporque não conhecia missão maior e mais nobre do que a de dirigir as inteligências e preparar o futuro dos homens”, mister do qual jamais o Professor Comel distanciou-se: ao contrário, sempre foi o elo, antes, durante, depois, fazendo ali o seu leito definitivo.

Na esteira de convivência, vimos que com ele quanto mais se sabia, mais se aprendia a duvidar, justamente, porque se estava aprendendo.

Nele, sempre a presença de um retrato fiel da virtude de que a sabedoria não vem só da inteligência, mas, também do coração, forma dúplice com que se pautava, e que sempre fazia a sua Tribuna Acadêmica.

Hoje, já não é apenas saudade. É uma ausência sentida.

Sabemos nós, que o sucesso é o valor pessoal multiplicado pelas circunstâncias. E, ele soube a tudo multiplicar. De modo especial amigos. O Acadêmico Wilson J Comel, teve no trabalho e na sua inteligência, uma das maiores sentinelas das suas virtudes, e mereceu aposta.

Lembro, que a tristeza o sacudiu, quando a burocracia, a lei impertinente à época, “obrigou ao mestre” uma aposentadoria precoce, afinal, “tenho só 70 anos”, argumentava.

O universo da sala de aula tem rendido histórias memoráveis. A lista é grande. Vai de Ao Mestre com Carinho, clássico da década de 60 retratando os desafios de um professor ao lidar com alunos rebeldes, ao recente seriado televisivo Segunda Chamada, que aborda os dilemas dos professores que dão aulas na periferia das grandes cidades. Não raro, tais obras têm inspirado gerações a escolherem o magistério como profissão.

 “Ao Mestre com Carinho, de James Clavell, inspirou toda uma geração”, lembra a professora aposentada Ada Lima, e nesta crônica lembramos do professor Comel. “A história de um professor que precisa lecionar em uma escola em meio ao desrespeito e à violência mostra que o afeto e a educação são capazes de mudar vidas. A canção do filme To Sir with Love virou um hino e teve até uma tradução para o português”, relembra, saudosa.

Para Fábio Oliveira, professor da Universidade de Brasília, os versos “Meu capitão, oh, meu capitão”, do poeta americano Walt Whitman, célebres na cena final de Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir, são inesquecíveis. “Mais do que conteúdos, o protagonista ensina seus alunos a questionar e valorizar a vida. Lembro-me de ter ficado impactado na primeira vez que o vi e nunca esqueci o significado da expressão em latim ‘Carpe Diem’”, explica Fábio.

Uma película do cinema indiano impressionou o professor do Centro Educacional (CED) 104 do Recanto das Emas e estudante de cinema George Silva ainda na faculdade. “Como Estrelas na Terra – Toda Criança é Especial, de Aamir Khan, conta a história do resgate de uma criança com dificuldades na escola por causa de sua dislexia. O personagem é um menino imaginativo que vai perdendo o interesse pelos estudos na medida em que é reprovado”, resume George.

Já o filme Meu Nome é Rádio foi o mais inspirador para Alessandra Ramalho, orientadora educacional do Centro de Ensino Médio (CEM) 02 de Brasilândia. “Esse filme despertou em mim a necessidade de trabalhar com estudantes especiais, até me especializei em neuropsicopedagogia. Achei fascinante o fato de que o professor pode transformar vidas. Muitos consideram que determinados alunos não têm a capacidade de aprender, mas mesmo com limitações qualquer ser humano é capaz”, assevera Alessandra.

O drama Preciosa: Uma História de Esperança, de Lee Daniels, narra uma história pungente e delicada. O filme é a escolha da professora Karen Lorrane e chamou a atenção para o fato de que a escola tradicional precisa inovar, se quiser contribuir efetivamente para a mudança na sociedade. “A protagonista possui um histórico de abuso sexual e uma trajetória difícil que só pode ser mudada pelo acolhimento de uma escola diferenciada. Eu já era licenciada, mas despertou em mim a necessidade de fazer mais e melhor. Lembrei-me de escolas como a dos Meninos e Meninas do Parque e as classes no sistema prisional. Um desafio diário aos professores”, enfatiza.

Não há como não colocar Wilson Comel neste Universo.

Por isso, neste momento, nossa crença é de que a sua história de professor e Acadêmico, por si diz tudo, e faz de nos seus órfãos.

Somos órfãos, do seu talento que a profissão exige.

Somos órfãos da sua disponibilidade aos seus eternos alunos, inclusive para aqueles com mais de 60.

Somos órfãos da sua escrita.

Somos Órfãos do seu caráter que a vida impõe, como força que resulta da acumulação das forças de vontade, em consonância com a liberdade, como escola da inteligência —- cerne da verdade, que não conhece perífrases, —- cerne da justiça, que não admite reticências, e que tem por única base o verdadeiro. E, nele, Professor Comel, a consciência visível, num retrato fiel de confiança.

A Academia está órfã do Comel.

Somos órfãos até da sua piada repetida, que sempre fazia graça. 

Espelham-se nele os alunos que o assistiam, constituindo suas palavras e um generoso alimento para cada alma. Cada dia um tom festivo, que se imaginava nunca ser derradeiro, mas, frescor da esperança, que inebria cada aluno, que acaba por contagiar e revigora o desejo de prosseguir na faina sublime de professor e escritor, de carreiras arrebatadora, paixão outonal.

Espelhamo-nos seus admiradores eternos.

Ele se foi.

Mas, nos legou.

A sua lembrança, nos anais da história da Academia de Letras dos Campos Gerais, será eterna, não importando o tempo nem o espaço, será essa energia desconhecida, infinita e presente.

Os Livros Sagrados dão o testemunho do poder do ser humano e da presença divina una em todos os momentos da história, ainda não desvendada de todo, guardando o Código da Bíblia em seu seio segredos que, com certeza, indicarão o verdadeiro destino dos homens, fornecendo a resposta às angústias e às dúvidas, que os atormentam e nenhum ser conseguiu sequer divisar.

Vivemos um momento histórico na caminhada deste novo milênio, prosseguindo as grandes descobertas humanas. E, poucos são como ele os que conseguem essa proeza: atingir uma vida de tantas conquistas.

O Acadêmico Wilson J Comel, como poucos, soube enfrentar e fazer essa caminhada. Sempre crente de que o homem não vive só, é um ser social, que estende a mão ao outro, fita seus olhos no infinito, à procura de algo que lhe está bem próximo – o outro ser.

As crianças do mundo, parecia que o Comel, as queria ao agasalho das suas asas. Á frente da Oab, um gigante. Uma referência indiscutível.

Colega, amigo, Confrade, paizão, teve grandes responsabilidades na condução deste mundo de tantas e tantas coisas, boas e más, como narrou já o mestre de Filosofia do Direito, Miguel Reale, ao ser homenageado, não faz muito tempo, no Instituto dos Advogados do Distrito Federal, ao completar 88 anos: “apesar de tudo, disse emocionado e com lágrimas nos olhos, vale a pena viver e lutar. E sonhar. E caminhar.”

Comel ainda vive… Ainda caminha…

Fez, do ensino e da Academia um sacerdócio, dos mais sagrados. Buscou conduzir seus alunos não importa a qual área se dedicar quisessem, ensinando-os que quantos e quantos ramalhetes estão a formar neste mundo moderno, que a todo o momento se descobre novidades imprevisíveis, ordenando que sempre façam o melhor, porque podem, sabem e devem fazê-lo.

O professor Comel, simplesmente, quis viver, trabalhar, realizar, criar, enfim, gravar sua presença na Terra, com seus feitos, não importam quais, pois tinha uma missão a cumprir, como o agricultor que semeia a terra, o varredor que varre o chão, o flanelinha que limpa o automóvel, a mãe que amamenta e acalenta o filho, o pescador que singra os mares, o escultor que cinzela a pedra bruta, o escritor que cria, o poeta que encanta o espírito, o músico que nos eleva e conduz ao Senhor do Universo, e tantos que forjam as condições de vida para todos, e ele, em especial, como um sacerdote do ensino da arte de bem escrever.

Com efeito, há duas maneiras de considerar o desaparecimento de nosso homenageado. A primeira inspira-se na reflexão de John Donne, o pensador inglês, que figura como epígrafe no livro de Ernest Hemingway, “Por quem os sinos dobram”: “No man is an island”.

Nenhum homem é uma ilha… cada homem é um pedaço do continente, uma parte do principal; se um torrão de terra é arrancado pelo mar, a Europa fica menor…; a morte de qualquer homem me diminui, porque faço parte da humanidade. Portanto não procure saber por quem os sinos dobram; eles dobram por você”.

Nesse sentido, e com mais forte razão ainda, por tratar-se de quem se trata, com a morte do Acadêmico Wilson Jerônimo Comel, todos morremos um pouco.

Mas, encaremos a situação com uma ótica mais esperançosa, mais iluminada, que melhor condiz com a personalidade do querido amigo. Pensemos que ninguém morre completamente se os seus trabalhos permanecem, se as suas ideias se propagam e conquistam outras mentes, se o seu exemplo é seguido.

E recordemos assim a indagação desafiadora do apóstolo Paulo: “Mors, ubi est victoriam tuam?”

O Acadêmico Wilson J Comel vive: no coração dos que participaram da sua vida, nesta Academia, por onde ensinou, na consciência dos discípulos e companheiros de trabalho que tanto aprenderam com ele, no compromisso, que todos temos assumido, de fidelidade aos seus ideais e aos seus sonhos.

Antes que eu me esqueça:

Numa discussão recente, comigo, Comel assumiu o compromisso de provar que o “Palmeiras tinha Mundial”. Não me surpreendo se de repente, do nada, ele mandar lá dos céus “uma prova cabal”. Arrumando a mesa para um belo “jogo de truco”, certamente

Da sua obra a reflexão que fica:

Verdade que minhas letras se inclinaram para o campo jurídico, porém não fiquei imune ás vicissitudes do nosso viver, temporal e finito. Residi, sempre que acessível, em colunas de jornais e revistas, não por profissão, mas por pendor humanista, sem receio de usar a pena.

Todos, poetas ou não, já fizeram seus versos, como ato de expressão de seus sentimentos perante a vida. Dia desses, mexendo e remexendo, o sótão e o porão das coisas que guardei, descobri versos meus, publicados em 1956, no jornal “O Oeste do Paraná”, intitulados INFÂNCIA PERDIDA. Assim protestava:

“Em minha volta
constroem-se aos milhares,
mas em mim,
pedaço em pedaço
em lento,
progressivo,
eterno,
inexorável destruir,
mostra-se a ruína
do que ontem se edificou.
Fecho os olhos,
tapo os ouvido,
cerro os lábios,
recuo temeroso
e a ruína toma vida, em imensas agonias
grita e treme
por algo perdido…
perdido na distância do tempo…
tão distante como o tempo
de criança…
O retrato de criança,
ainda está no meio das ruínas,
por isso ainda se apiedam de mi.
Agora é tarde…
rematada loucura,
fazer o que não fez a criança!…
Por este momento, não posso deixar de lhes

acrescentar:

Não, não é tarde!…
Não sabia, então,
que em outro tempo,
na velhice,
seria livre,
como livre deveria ser…


ser agora a criança que nunca fui.”
Ser… neste instante, pois sinto uma vontade enorme de sorrir, abraçar a tudo e todos, pela simples razão de que me sinto feliz como feliz deveria estar toda a criança deste nosso querido Brasil!

Obrigado!

Que pena que você nos deixou, mas Deus tinha os seus motivos e seus planos.

Com nossas homenagens

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

Academia de Letras dos Campos Gerais

Acadêmico – Cadeira 34.

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